Eletromobilidade e a segurança! Parte II

Dando continuidade à série de artigos sobre a segurança em veículos eletrificados, nesta edição trataremos das questões concernentes ao ambiente de oficina, os riscos envolvidos nas manutenções e a importância da infraestrutura

Texto: Valério M. Marochi

Fotos: Divugação

Permita-se pensar um pouco: será que o seu mecânico de confiança está apto a reparar um veículo híbrido ou elétrico? E quanto à oficina dele, está adequada para esta demanda? Em caso de acidente envolvendo choques elétricos, há alguém da equipe capacitado a prestar os primeiros socorros à vítima? Essas e outras perguntas devem estar fervilhando na sua mente agora. Vamos a elas então!

Riscos velhos e novos

Oficinas automotivas, como qualquer ambiente de trabalho onde funcionários operam e/ou reparam máquinas e equipamentos, sempre foram e serão ambientes que expõem os profissionais a diversos riscos de acidentes. Portanto, a chegada dos veículos eletrificados não altera em nada esse cenário, prevalecendo as mesmas regras, normas e boas práticas de segurança já aplicadas. Talvez a mudança maior esteja no fato de que, até então, os riscos de acidentes envolvendo eletricidade eram menores, uma vez que os veículos operam com sistemas elétricos de extra baixa tensão (12 ou 24 Volts). A nova realidade é bem mais séria: com sistemas de propulsão elétrica que podem operar em até 700 Volts de tensão e correntes elétricas na casa das centenas de Ampères, qualquer desatenção ou negligência num processo de manutenção pode causar acidentes com consequências e/ou resultados irreversíveis sob todos os aspectos.

Na manutenção de veículos elétricos, além dos riscos já inerentes a um veículo convencional, há também os adicionais, como: risco de choques elétricos devido à presença de componentes e cabeamentos alimentados por alta tensão ou energizados por tensão residual, mesmo após a desconexão da fonte de energia; sistemas de armazenamento com potencial de causar liberação de gases tóxicos, incêndios e explosões se manuseados incorretamente; componentes elétricos com potencial para causarem interferências em dispositivos médicos, como marca-passos; e até atropelamentos causados pela aproximação silenciosa de veículos elétricos.

Níveis de qualificação x risco

Tendo em vista os riscos apontados, eis a pergunta: ‘quem nas oficinas precisa receber qualificação específica e que níveis são exigidos? ’. Pois bem, a resposta é: todos os funcionários das oficinas, desde a equipe administrativa até os reparadores, precisam de qualificação voltada para veículos elétricos, porém em três níveis diferentes. O primeiro nível é para funcionários que não têm contato direto com os sistemas de propulsão elétrica, que precisam conhecer sobre as tecnologias presentes nos veículos elétricos, entender os riscos envolvidos e saber como agir em situações de emergência. O segundo nível de qualificação é para os técnicos que farão intervenções diretas no sistema de propulsão elétrica, demandando certificação de segurança para atuar em atividades envolvendo eletricidade (NR 10) e também curso específico do modelo de veículo que se pretende reparar. O terceiro nível diz respeito aos reparadores incumbidos de testar e reparar os sistemas de armazenamento de energia (baterias de tração), atividade esta que apresenta risco constante devido à operação dos sistemas ainda energizados (linhas vivas). Esse nível requer os treinamentos do segundo nível, além de qualificação específica para trabalhar com baterias de tração.

Segurança de fora para dentro

A fim de evitar a abordagem incauta por parte do reparador a elementos e componentes que apresentem risco de choque elétrico, todos os cabeamentos de ‘alta tensão’ veicular são confeccionados em cor laranja, e todos os componentes e sistemas que armazenam ou que são percorridos por ‘alta tensão’ (conhecidos como ‘linhas vivas’) são etiquetados com o símbolo de alta tensão ou tensão perigosa (triângulo amarelo com raio no centro). Isto permite a identificação visual dos elementos de risco, que requerem conhecimento prévio e observação de procedimentos padronizados pelo fabricante antes do manuseio. Dentre as premissas para a manutenção de veículos elétricos, estão o uso de EPI (Equipamentos de Proteção Individual), EPC (Equipamentos de Proteção Coletiva), ferramentas especiais e literaturas técnicas para cada carro e cada situação. Além disso, faz-se necessária a adequação da infraestrutura da oficina, como aquisição de equipamentos para remoção, instalação e manuseio de baterias de tração, equipamentos de teste e medição elétrica específicos e equipamentos de diagnóstico eletrônico (scanner) compatíveis. Calma! A sugestão é agir de forma pró-ativa, mas ponderada, identificando as necessidades de investimento de acordo com a demanda, a fim de evitar gastos exorbitantes que demorarão muito tempo para produzir um retorno financeiro.

Bom senso, sempre

Infraestrutura, qualificação profissional, EPI e EPC adequados e procedimento padrão são as regras básicas para o sucesso de qualquer manutenção, além de garantir a segurança e a saúde dos profissionais envolvidos. Para se ter uma ideia, não existem registros, a nível internacional, de acidentes ou mortes envolvendo manutenção de veículos elétricos, o que nos leva a inferir que, na falta de qualquer um desses elementos, o bom senso deve falar mais alto. Não se deve flertar com o desconhecido, e o desconhecido não deve permanecer desconhecido por tempo demais. A solução? Qualificação profissional e condições ideais de segurança para o reparador!     

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