OFechando o tema da segurança envolvendo veículos elétricos e/ou eletrificados, este mês vamos tratar das piores condições: os incidentes envolvendo este tipo de veículos e também as principais ações a serem tomadas numa situação extrema, como incêndios, por exemplo

Texto: Valério M. Marochi

Fotos: ehvsafety.com

É válido reforçar que o nível de segurança que um carro elétrico oferece aos passageiros é, senão igual, maior do que nos veículos convencionais, mas fatalidades acontecem e todos os profissionais envolvidos precisam estar aptos a responder corretamente em cada situação.

Procedimentos iniciais de emergência

Um aviso inicial: situações de emergência devem ser abordadas somente por profissionais habilitados e ponto! Tudo que for tratado neste artigo vale para estes profissionais, e não para transeuntes e civis que apesar da boa vontade, não possuem conhecimento de causa. Captou a ideia?! Pois bem, em acidentes envolvendo veículos os procedimentos iniciais são sempre os mesmos: identificar, imobilizar e desabilitar, em seguida as táticas de abordagem são adotadas, de acordo com o tipo de risco e gravidade do acidente, presença ou não de vítimas e etc. A identificação permite ao bombeiro e/ou socorrista reconhecer características como tipo de sistema de propulsão do veículo, localização dos elementos de risco e demais itens importantes para as próximas etapas. No caso dos híbridos e elétricos, os fabricantes disponibilizam um Guia de Resposta de Emergência (QRG, do inglês Quick Response Guide), que possui as principais informações para a correta identificação dos elementos e sua localização (conforme figura). Os principais elementos em destaque no documento são a bateria auxiliar, as linhas de alta tensão, a bateria de tração, a chave de bloqueio da bateria de tração e as estruturas de reforço da carroceria.

Fonte: https://ehvsafety.com/training/

Em seguida é realizada a imobilização do carro, colocando-se em marcha neutra, aplicando o freio de estacionamento (quando possível) e calços nos pneus para evitar o deslocamento acidental. Por fim, o veículo é desligado ou desabilitado, se possível através do desligamento e remoção da chave de ignição (principalmente chaves com sensor de presença). Caso o botão ou comutador de ignição esteja inacessível, recorre-se ao desligamento da bateria 12 V ou mesmo o corte do cabo negativo da mesma, por isso a importância de saber a correta localização de cada componente no carro.

Para cada situação, uma abordagem

Em acidentes envolvendo veículos eletrificados, há três situações que geralmente preocupam ou mesmo chamam a atenção quanto às táticas e procedimentos de socorro, são elas: incêndios, submersão e vazamento de fluidos. Vejamos cada uma destas situações então.

As baterias de tração veicular são constituídas de elementos químicos altamente inflamáveis e, em caso de exposição a fontes de calor extremo ou mesmo contato direto com água e ar, podem incendiar facilmente. Apesar dessa característica, a localização e encapsulamento dos sistemas de armazenamento de energia, bem como os sistemas de controle eletrônico, garantem que somente em situações extremas as células sejam expostas a essas condições de risco. Se isso ocorrer, a tática de extinção de incêndio deve ser defensiva, permitindo que as células queimem até o fim, utilizando-se quantidades abundantes de água para controlar o fogo (aproximadamente dez vezes mais do que para um veículo convencional), a uma distância segura e evitando que o mesmo se alastre para outras partes do veículo ou mesmo para o ambiente ao redor.

Em caso de submersão parcial ou total do veículo, os sistemas elétricos do mesmo são projetados para não oferecem risco de choque elétrico seja pelo contato com o carro ou mesmo energização da água ao redor. Os procedimentos de resgate de vítima e remoção do veículo da água permanecem os mesmo para qualquer carro. Quanto à bateria de tração, em alguns casos a submersão pode causar borbulhamento e produção de gases como hidrogênio, oxigênio e cloro. Por conta disso, o habitáculo do carro precisa ser ventilado a fim de reduzir a produção destes gases e a sua concentração. Uma vez fora da água, não se deve, em hipótese alguma, tentar dar a partida. Assim como num veículo convencional é necessária uma inspeção de todos os sistemas antes a fim de evitar risco de acidentes posteriores.

O derramamento de fluidos é o menor dos riscos apresentado por veículos híbridos e elétricos. No caso dos híbridos, estão presentes os mesmos fluidos encontrados em carros convencionais, inclusive combustível, para os quais os procedimentos padrão de contenção são válidos. No caso dos puramente elétricos, já não estão presentes o combustível e o óleo de motor, por exemplo. As baterias de tração apresentam baixo risco de vazamento e, em caso de ocorrência, procedimentos de contenção de substâncias corrosivas devem ser adotados.

Acidentes são fatalidades que não deveriam acontecer, mas caso ocorram, para cada situação há uma abordagem e, assim como nas práticas atuais de socorro, se todas as condições de segurança forem satisfeitas e os profissionais envolvidos estiverem devidamente capacitados, as chances de sucesso no resgate de vítimas e preservação da vida são muito grandes, independente do tipo de propulsão que o veículo possui.