Texto: Bruno Bocchini        Fotos: Ricardo Kruppa

Norte-americano presenteia esposa pelos vinte anos de casamento com um clássico conversível de 400 cv; modelo lembra icônico Camaro Yenko/SC

Para quem acreditava que a Chevrolet não daria uma resposta ao lendário Ford Mustang surgia, em 1968, o Camaro SS com vários opcionais. Em 1967 o modelo fez a estreia no mercado, mas um ano depois viriam mudanças estéticas mais elegantes, com o capô alongado, plataforma curta e, claro, o estilo esportivo. O norte-americano Joe Witte, 51 anos, arquiteto, morador de Phoenix, no Arizona, encontrou a versão conversível do Camaro 1968 no Goodguys Show e, sem dúvida, decidiu emplacar a compra. O entusiasta queria dar um carro de presente de vinte anos de casamento para sua esposa, Cathy Witte, e então optou pelo modelo conversível.

O Camaro foi direcionado para a oficina de customização Lucky Luciano Custom Paint, tradicional espaço comandado por Luciano Lacerda, 47 anos, brasileiro que reside nos Estados Unidos desde 1992. “O Camaro estava em bom estado, mas após passar o jato de areia descobrimos que a história não era bem essa. Laterais, porta-malas, canoas, tampa do porta-malas e para-lamas tiveram que ser substituídos por novas peças, pois as antigas estavam bem danificadas”, comenta Luciano.

Joe queria que o projeto seguisse a linha original para não alterar a história do clássico. Então, Luciano sugeriu modernizações que não afetariam a trajetória proposta pelo rodder. “A elétrica e a mecânica foram feitas pelo próprio Joe e nossa oficina ficou com as demais alterações, como a chapeação, que deu muito trabalho”, explica o customizador.

A mecânica do Camaro recebeu um bloco Chevy 350 strocked com carburação Edelbrock 600 CFM. O câmbio adaptado, um 200R4 automático, teve que ser retrabalhado para suportar a cavalaria imposta pelo motor (atualmente com 400 cv). A “brincadeira” ganhou mais emoção com a instalação da dupla saída de escape inoxidável da Headman e cruzamento silencioso Dynomax. Luciano optou pela suspensão dianteira com molas helicoidais e amortecedores a gás KYB. Na traseira o kit contempla um high-end multi-folhas com molas.

No interior, o conversível ganhou assentos houndstooth com encostos de cabeça, instalação de ar-condicionado e coluna de direção GM. Houve ainda o cuidado com o sistema de som, que conta com um kit de alto-falantes de 180 W, suporte para leitura de iPod e rádio AM-FM. O volante escolhido é GM da versão SS, seguindo a identidade do carro, e os instrumentos são originais.

A estética do clássico mantém o “espírito” da década de 60 e a pintura personalizada Sherwin Williams em tom de azul contrasta com a capota escura. Os detalhes do spoiler traseiro e as saídas originais sob o capô – ao mesmo tempo em que transmitem modernidade ao projeto, garantem o toque esportivo do Camaro antigo. “É sem dúvida um automóvel que chama muita atenção e desperta curiosidade. No Brasil ele fatalmente atrairia muitos olhares. Por aqui, nos Estados Unidos, é mais comum ver clássicos bem cuidados, mas esse Camaro do Joe é extremamente requintado”, lembra Luciano.

Para harmonizar o exterior do veículo, Joe e Luciano optaram pelas rodas pretas Boss 383 com medidas 18” x 8.5” na dianteira e traseira – elas foram calçadas em pneus Nexen 555 de medida 235/40R18 na frente e 245/45R18 atrás.

Yenko na medida!

John DeLorean, antes de criar o esportivo homônimo que fez fama como máquina do tempo no filme ‘De Volta Para o Futuro’, simplesmente inventou o conceito ‘muscle car’ com o Pontiac GTO. Carroll Shelby criou o Cobra, e depois preparou Mustangs que fazem fama até hoje. Junto deles, está Don Yenko. Ele não é tão conhecido, mas nem por isso deixa de ser uma lenda: ele criou um dos muscles mais incríveis da história, o Camaro Yenko/SC. Em 1957, Donald Frank Yenko abriu uma oficina preparadora especializada em Chevrolet, aproveitando o espaço da concessionária aberta por seu pai dez anos antes em Canonsburg, Pensilvânia. Naquele mesmo ano, ele estreou em corridas de turismo pelos EUA, e a oficina era seu trabalho secundário.

Foi assim até 1965 – ano em que Yenko começou a preparar o Chevrolet Corvair. Apesar da má fama do modelo graças ao livro ‘Unsafe at Any Speed’, de Ralph Nader, que fazia duras críticas à sua suspensão traseira, Yenko gostou de como o Corvair, com seu boxer de seis cilindros refrigerado a ar e montado na traseira, se comportava.

Foram produzidos 185 Corvair preparados entre 1965 e 1969 – com motores de até 240 cv e melhorias na suspensão, transmissão e direção. Os carros eram homologados para competir nas provas organizadas pela SCCA, mas Yenko jamais pilotou um deles – ele dizia que não queria competir com suas próprias criações, e preferia que elas ajudassem outros pilotos a vencer.

O Yenko Stinger – como ficaram conhecidos os Corvair preparados pela Yenko – fizeram sucesso entre equipes privadas no circuito de automobilismo americano, e Yenko passou a concentrar seus esforços na preparação, deixando as corridas em segundo plano. Mas há uma razão para você não ter ouvido muito sobre o Stinger: em 1966, a Chevrolet lançou o Camaro como resposta ao Mustang, e Yenko enxergou imediatamente o potencial do novo carro.

No projeto do Camaro de Joe há evidências de que a “filosofia” de Yenko influenciou as ações estéticas – sobretudo pela cor azul e detalhes em preto (uma das opções famosas aplicadas para o Camaro Yenko). “O Camaro Yenko mantinha 430 cv na receita com motor de Corvette, no nosso caso o Camaro de Joe tem 30 cavalos a menos e o câmbio automático que prevalece conforto. Mas o estilo, a filosofia e a identidade esbarram na história do clássico”, diz Luciano.

Para “coroar” o projeto, no melhor estilo brasileiro, Luciano e Joe foram comparsas na festa. “Depois do projeto finalizado, realizamos um churrascão gaúcho em homenagem a Joe e sua esposa Cathy. Ela não tinha a menor ideia de que a surpresa seria o Camaro. Na hora do discurso, Joe presenteou Cathy com um Camaro de brinquedo pintado por nossa oficina da mesma cor do carro original. Ao mesmo tempo eu cheguei dirigindo o Camaro até entregar para a Cathy. A surpresa foi grande, bem bacana”, relembra Luciano.

Certamente, um “mimo” que não se encontra em nenhuma lista de presentes em comemoração a ‘Bodas de Porcelana’. Don Yenko ficaria orgulhoso!

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